O filho sintomático

Eudes Quintino de Oliveira Júnior

Por maior que tenha sido o rastro dos estragos, a data, por si só, em razão do seu significado, rebate qualquer intempérie e permite que o filho, num rasgo de coragem, busque as palavras mais certas nas múltiplas intensidades de sua homenagem.

O dia dedicado às mães sempre tem um significado coletivo, quando a comunidade se rende em agradecimentos, e o individual, que cabe a cada filho desenrolar o novelo de sua história e, com o coração contrito e a alma em festa, prestar suas merecidas homenagens. O costume, como é de praxe, recomenda que o domingo seja um dia festivo para a confraternização familiar. Cada um comemora a seu modo e nenhuma mãe fica sem homenagem.  Até aquela que já se foi.

Ocorre que a pandemia provocada pelo coronavírus, além de muitos dissabores que já causou ao país, acrescenta mais um que reside no impedimento do encontro dos filhos com as mães. Mas a data não pode passar em branco. Muito menos a distância se apresentar como obstáculo para o filho, que deve esquecer as agruras externas, atravessar o labirinto de dúvidas e incertezas e fantasiar-se no maior festeiro para se aninhar nos apertados abraços, presentes ou distantes, daquela que o ensinou a caminhar pelo chão firme.

Por maior que tenha sido o rastro dos estragos, a data, por si só, em razão do seu significado, rebate qualquer intempérie e permite que o filho, num rasgo de coragem, busque as palavras mais certas nas múltiplas intensidades de sua homenagem.

Diga a ela, mesmo que seja por qualquer canal de comunicação que, assim como as pessoas diante do coronavírus, você é sintomático. Isto porque você se considera um caso suspeito de amor infinito, seguro e definitivo, passando a ser, posteriormente, um caso de notificação obrigatória para todos aqueles que escancaram o coração para externar o sentimento de gratidão.

Dentre os sintomas, você pode declarar a ela que sempre teve uma convivência intensa, sem qualquer distanciamento social ou familiar; que você recebeu, desde sua mais tenra idade, doses excessivas de carinho e afeto, seguidos de votos de paz e felicidades; que você aprendeu com ela que cada pessoa carrega em seu interior uma imensurável riqueza; que graças à persistência e ao extraordinário denodo dela, você conseguiu iluminar a sua zona de penumbra; que por ter recebido dela um caminhar calcado na realidade,  você não habitou projetos de utopias e quimeras e sim percorreu as vias que o conduziriam a um porvir grandioso;  que ela foi sua melhor professora porque buscou com sua experiência ensinar que o mundo vai muito além do quintal da casa; que você a elegeu como sua rainha e dela recebeu as mais nobres virtudes: gentileza, humildade, civilidade, benignidade, prudência, sobriedade, temperança e vigilância; que ela é detentora de uma espiritualidade invejável, com preces que chegam rapidamente a Deus e retornam em benefícios para toda a família; que o canto que o embalou desde o berço, com as cantigas inesquecíveis, é o mesmo que canta para os seus filhos; que você hoje, sentado à sombra das recordações, sente que a exemplar imagem dela salta à frente do seu pensamento; que nada mais resta a você a não ser demonstrar publicamente, como se fosse a leitura de um edital do reino, sua eterna gratidão.

Resta uma derradeira observação a se fazer: dentre todos os sintomas apresentados, você não é assintomático, indiferente. Tem a alma plena, fertilizada pelo afeto materno e, neste momento tão difícil, é capaz de resgatar a esperança da humanidade.


*Eudes Quintino de Oliveira Júnior é promotor de justiça aposentado/SP, mestre em direito público, pós-doutorado em ciências da saúde, reitor da Unorp, advogado.

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