Armadilhas na manutenção de para-raios

Caso publicado no Tira-dúvidas do SíndicoNet aponta frequentes práticas duvidosas por empresas nesse sistema. Informação e amparo técnico são essenciais

Por Catarina Anderáos
Caso publicado no Tira-dúvidas do SíndicoNet aponta frequentes práticas duvidosas por empresas nesse sistema. Informação e amparo técnico são essenciais

Inspeção de para-raios, ou Sistema de Proteção contra Descargas Atmosféricas (SPDA), está entre as manutenções obrigatórias que todo condomínio deve realizar periodicamente.

Por ser um sistema complexo, normatizado pela ABNT NBR 5419  e exigir mão de obra especializada, nem todo síndico está preparado para a contratação do serviço, atrelado diretamente à segurança do condomínio e seus ocupantes.

Como identificar quando é necessário fazer determinadas manutenções e adequações? Qual é referência de valores honestos para a realização dos serviços?

Um caso que ilustra bem essa situação foi registrado no SíndicoNet, na seção colaborativa Tira-DúvidasNesse canal, as pessoas cadastradas em nosso site podem enviar perguntas ou dúvidas e a comunidade responde, compartilhando seu conhecimento e experiência.

O caso foi a respeito de um serviço duvidoso de manutenção do sistema de para-raios, gerando um grande engajamento em nosso fórum.

CONHEÇA O CASO:

Bom dia,

Semana passada meu condomínio recebeu a visita da empresa responsável pela manutenção do equipamento. Como trabalho o dia todo, não acompanhei a manutenção e verificação do equipamento.

Recebi a informação que a visita e vistoria do equipamento seria R$ 450,00. Para minha surpresa recebi um email da empresa com a seguinte informação:

“O sinalizador e a fotocélula com os split bolts rompidos estão em curto, pois o aterramento do sistema esta deteriorado com diversas avarias estruturais e apresenta pontos de equalizações de cargas queimados possivelmente por descargas atmosféricas “RAIOS”, esse aterramento tem a finalidade de descarregar, conduzir e liquidar qualquer variação e oscilação de carga que houver na ESTRUTURA da edificação, ficando assim todos em segurança 24h, notificamos por meio desta que o sistema não esta apto a oferecer segurança alguma aos moradores e visitantes, devido ao sistema de aterramento estar em situação de risco sem sua função de origem o aterramento e a condução de energia elétrica.

Solicitamos por este e-mail a troca de 08 grampos de equalização de carga foram QUEIMADOS, hoje já entramos em contato com a fábrica e o valor do grampo pronto é de R$ 275,30, o mesmo pode ser parcelado em ate 08 x no boleto bancário sem juros e sem qualquer ônus extra, o condomínio tem cadastro nacional de pessoa Jurídica CNPJ eles parcelam direto para o condomínio com nota e boleto direto para vocês”. (continua)

HÁ 6 ANOS! 

O mais interessante é que esse tópico foi criado em 2013 por um usuário do SíndicoNet e, com o passar dos anos, outros síndicos foram se identificando com a situação e postando seus relatos, muito semelhantes nos problemas e soluções apontados.

Em resumo, para praticamente todos os condomínios que se manifestaram em nosso fórum, a mesma empresa disse ser necessário fazer a troca de grampos de equalização de carga, que foram queimados porque diversos raios haviam caído no condomínio.

DETALHE: O valor cobrado por cada grampo permaneceu o mesmo no intervalo de seis anos: R$ 275,30, parcelado em até 8 vezes no boleto bancário “sem juros e sem qualquer ônus extra”.

“O preço de R$ 275,30 apresentado para esse grampo do sistema de para-raios é fora da realidade. Essa peça não custa mais do que R$ 40 ou R$ 50, dependo da qualidade e do tamanho”, esclarece Carlos Marrocos, engenheiro civil com mais de 35 anos de experiência atendendo condomínios.

Outro alerta do especialista, que também é engenheiro de segurança do trabalho e de avaliação e perícia, é quanto à probabilidade de queda de raio.

“No Tira-dúvidas, há relato de que caiu raio por diversas vezes no prédio. Dificilmente um raio cai no mesmo lugar. E se de fato caiu, um raio só pode queimar tudo”, elucida o diretor da Marrocos Engenharia e Diagnóstico da Edificação.

Para quem ficou curioso e quiser ler a íntegra da “novela mexicana” do para-raios – com registro de reclamação de diversos síndicos e “direito de defesa” do prestador de serviço – é só acessar aqui.

Manutenção de para-raios deve seguir norma da ABNT

Carlos Marrocos explica que a norma ABNT NBR 5419, que trata de Proteção contra descargas atmosféricas e é dividida em quatro partes, passou por mudanças para aumentar a segurança do sistema elétrico e está em vigor desde junho de 2019.

“Foram trazidas mudanças significativas na ABNT NBR 5419 e todo condomínio precisa se adequar. Um dos itens é instalar DPS (Dispositivo de Proteção de Surto), equipamento que protege equipamentos elétricos dos condomínios. É necessário fazer um projeto, orçar e contratar uma empresa idônea para executar o serviço que emita um laudo com Anotação de Responsabilidade Técnica (ART)”, explica Marrocos.

Passo a passo para uma manutenção correta no sistema de para-raios do condomínio

O síndico deve se atentar a alguns cuidados para que as manutenções do SPDA sejam feitas da forma certa:

  • De preferência, contratar uma vistoria técnica, a ser feita e assinada por um profissional especializado isento
  • Solicitar a este profissional um memorial descritivo dos serviços necessários, em conformidade à NBR 5419
  • Abrir uma cotação conforme o memorial descritivo
  • Selecionar a melhor proposta a partir da cotação equalizada
  • Solicitar sempre, ao final do serviço contratado, um atestado de conformidade com a respectiva ART do responsável técnico
  • O atestado deve ser assinado por um engenheiro eletricista, que deve anexar cópia da carteira do CREA.

Quando o síndico não é especialista no assunto, além de recorrer a um profissional especializado ou a assessoria técnica para ter todo o suporte necessário listado acima, ele também deve contar com o auxílio de sua administradora.

E se não tiver essa assessoria? 

“No mínimo, o síndico deve analisar três propostas e verificar a diferença entre elas, com a ressalva de que todas tenham sido feitas por um responsável técnico credenciado”, reforça o engenheiro.

  • Use o CoteiBem, plataforma de cotações do SíndicoNet, para obter orçamentos de empresas avaliadas por outros síndicos

Síndico, não caia em golpes. Avalie a empresa antecipadamente

Para não cair em golpes, o síndico deve checar bem a empresa que irá contratar:

  • Verificar sua idoneidade:
    • se o CNAE (Classificação Nacional de Atividades Econômicas) da empresa corresponde à atividade
    • levantar a ficha cadastral: certidões negativas de INSS, FGTS, Receita Federal, Junta Comercial etc
    • Verificar a avaliação da empresa no SíndicoNet | CoteiBem
    • verificar possíveis reclamações em sites como ReclameAqui
    • analisar o contrato social da empresa e fazer buscas em cartórios de registros de títulos, bem como no Serasa e SPC para ver se não há títulos protestados
    • Contrato Social ou Documentação Societária
    • Cartas de referência a entidades bancárias, com atestado de idoneidade
  • Verificar responsável técnico da empresa
  • Solicitar que abaixo da assinatura conste o numero do CREA do Responsável Técnico. Em caso de dúvidas, consulte o CREA.

Carlos Marrocos, engenheiro civil e diretor da Marrocos Engenharia e Diagnóstico da Edificação

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