Sexo forte?

Maria Berenice Dias

As tentativas de preservação da “família tradicional”, a proibição da educação sexual nas escolas, a apologia à virgindade feminina para controle da natalidade, entre tantas outras bobagens, só acirram os estereótipos que levam a esta realidade cada vez mais devastadora.

Todo mundo diz – e acredita – que os homens são o sexo forte. Será?

Ao saber que será um menino, mesmo antes de nascer é escolhido o time de futebol para o qual o filho irá torcer. Já sai da maternidade vestido de atleta, sem que se tenha ideia se ele vai gostar de correr atrás de uma bola, ou não.

Somente ganha brinquedos competitivos. E  pior. É  presenteado com armas e games  e estimulado a simular combates. E claro que ele precisa sempre vencer. Afinal, não pode chorar, não pode levar desaforo para casa. Precisa ser viril. Segundo o dicionário, virilidade está relacionada com o comportamento do indivíduo do sexo masculino e  significa  condição do que é másculo, energético, potente, esforçado, vigoroso ou corajoso.

Um  menino não pode se aproximar dos brinquedos tidos como femininos, como bonecas e toda a parafernália com que as meninas são adestradas para atividades domésticas. Recebe um sem número de adjetivações, todas pejorativas e de conteúdo homofóbico.

Sequer pode brincar com as colegas. A toda e qualquer aproximação é atribuído um conteúdo de natureza sexual. Não é amiga. É namorada.

Também não podem entrar na cozinha: é lugar de mulher!

A iniciação sexual sempre foi estimulada desde muito cedo. Nem sei se ainda existe esta prática, mas na adolescência eles eram levados pelo pai ou algum parente ao que se chamava de “zona” para virarem homens.

Os pais se envaidecem ao saber que o filho é um “pegador” . 

O livre exercício da sexualidade pelos homens sempre foi naturalizado. Reconhecido até como um instinto irresistível. Tanto que a infidelidade é motivo de orgulho e gera admiração e inveja dos amigos.

Também é assegurado aos filhos homens estudos de melhor qualidade, pois precisarão ser os provedores da família.  Sim, é imposto ao homem a obrigação de casar. Sob pena de ser rotulado de gay. Um parêntese. Esta imposição também é feita às mulheres. Mas se elas não casam é porque ninguém as quis.

Com o casamento, o marido  é convocado a exercer funções e dividir encargos para os quais não tem a mínima habilidade, pois durante toda a vida lhe impediram de realizar tarefas domésticas ou se preparar para o exercício da paternidade. Com isso se torna refém de cobranças e desqualificações.

Os inevitáveis conflitos são enfrentados pelos homens com as armas que lhe ensinaram a manejar. A força física passa a ser usada como “corretivo”. Ora, a mulher é dele, lhe deve obediência. Precisa manter-se pura, recatada e do lar.

Ao “poder” correcional soma-se o “direito” exclusivamente masculino de ser infiel. Assim,  manter famílias simultâneas é uma prerrogativa masculina. Para isso, inclusive, conta com a conivência da Justiça. Sob o equivocado argumento de afronta ao “princípio“ da monogamia, é negado o reconhecimento a estes vínculos paralelos. A tentativa é punir a “outra”, mas sua prática acaba por ser estimulada.  Desonera o homem dos encargos decorrentes da união estável que mantém, ainda que atendidos todos os requisitos para o seu reconhecimento: ostensividade, publicidade e continuidade. Ou seja, o casamento vira verdadeiro ferrolho gerador de irresponsabilidades.

É histórica esta postura  machista da lei e dos juízes. Os filhos ilegítimos não tinham sequer direito à identidade. Até o advento da atual Constituição,  as uniões extramatrimoniais não eram reconhecidas como entidade familiar. Invisibilidades que formaram legiões de crianças e de mulheres famintas.

Por óbvio que este cenário confere ao homem total onipotência. Incontestavelmente uma das causas dos assustadores índices da violência doméstica  e feminicídios.

Cabe um alerta à onda de conservadorismo que vem dominando o mundo, e já aportou no Brasil. As tentativas de preservação da “família tradicional”, a proibição da educação sexual nas escolas, a apologia à virgindade feminina para controle da natalidade, entre tantas outras bobagens, só acirram os estereótipos que levam a esta realidade cada vez mais devastadora.

Quem sabe se passa a dizer aos meninos que eles não precisam ser fortes e nem viris. Podem chorar. Eles precisam aprender a serem gentis, a respeitarem as meninas. Para isso é necessário que conheçam o universo feminino, o que não vai comprometer sua  orientação sexual ou identidade de gênero.

Está mais do que na hora de os pais deixarem de temer que seus filhos possam ser gays. Precisam somente ensiná-los a serem humanos.

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*Maria Berenice Dias é advogada e vice-presidente Nacional do IBDFAM – Instituto Brasileiro de Direito de Família.

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